Ainda estamos órfãos de Pai?

Com a vinda de meu padrasto a minha casa, tentei explicar a ele o que se passou em nosso estado, e fiz um paralelo a morte do Pai em boa parte das famílias, e um certo resquício desse momento aos dias de hoje.

A família tradicional até os anos 90, tinha o pai como um grande líder, o senhor que apontava aonde podíamos ir, em que podíamos acreditar, e traçava até nossos destinos. Um lar patriarcal onde os seguidores ficavam à espera, na expectativa de ser melhor agraciado que outros irmãos. Claro que era um pai temido, amado  e odiado ao mesmo tempo, mas era o rumo de parte das famílias patriarcais.

A morte desse pai trazia uma verdadeira desordem ao núcleo familiar, um caos que começava a ser vivido ainda no leito de morte. A casa já ficava suja, as contas deixavam de ser pagas, o medo e a incerteza tomavam conta de boa parte dos lares. A falta desse pai dava motivo para discórdia, os filhos, herdeiros , esposas, cônjuges de filhos e filhas começam a brigar por seu lugar  e até sussurrar por quem vai ocupar o espaço do Pai simbólico. Na sociedade contemporânea multifacetada, me pergunto se ainda cabe, ou se é necessário, um pai dominador que imponha a lei  e a ordem para que todos tenham um único rumo, que esse pai traga a garantia de um futuro melhor. Mas o que quero realmente trazer aqui é o paralelo  da morte do Pai para a politica, esse chefe de estado que outrora controlava “tudo” com mão forte, dos antigos líderes que se foram de certa forma muito cedo como o ex-governador João Alves, e o também ex-governador Marcelo Deda.

Pode se dizer à época que um era de direita, e outro o representante da esquerda, mas ambos pais políticos e verdadeiros lideres natos em suas posições. Convivi de perto na década de 90 com João Alves, um líder que, por sua vez, tinha as lideranças bem próximas e dizia de forma adequada quem iria ser deputado federal, ou  estadual, e com quantos votos. Com muito jogo de cintura conseguia o que queria, sendo governador por quatro mandatos. João Alves tinha por perto o Judiciário , o Legislativo e, claro, o Executivo, de forma bem harmônica, sem qualquer chance de um “impitima” – já consigo escutar até uma gaitada do ex-governador…(risos).

Nos anos 2000, vi o crescimento do líder da oposição,  e ocupando também o papel de pai político,  Marcelo Deda, grande orador e forte liderança da oposição que nascia com prefeito da Capital, e depois  viria a se tornar também governador, e um líder promissor de todo o estado, reunindo em seu entorno praticamente todas as lideranças sergipanas, exceto claro  o próprio ex-governador João Alves Filho naquele primeiro mandato.

Mas a chegada da nova década trouxe novos arranjos e modelos de família, novas maneiras de relacionamento, chefes de família já nao eram necessariamente o homem, em muitos casos famílias economicamente  lideradas pela mulher.

As lideranças fortes, em formato piramidal, foram se esvaindo, tivemos pela primeira vez uma mulher na Presidência da República, e em postos importantes de comando do nosso grande pais. As responsabilidades domésticas foram se dividindo, os filhos foram impondo seus desejos e os pais passaram a perguntar aos filhos o que deviam fazer, e em muitos casos os pais já nao tinham mais o poder de outrora.

Bem a sociedade mudou, alguns herdeiros consagrados de nossa politica morreram precocemente – quando digo herdeiros falo em  José Eduardo Dutra, que tinha um futuro brilhante, vindo a ser presidente de uma das maiores estatais do mundo , a Petrobras.

Também com futuro promissor tínhamos o ex-deputado federal Pedro Valadares, com um caminho já projetado como ministro chefe da Casa Civil do presidenciável Eduardo Campos, que também morreu precocemente, no mesmo acidente de avião.

Tudo isso fez com que Sergipe ficasse sem um grande líder, sem um pai politico, um pai que colocasse seus liderados em seu lugar e desse um rumo comum a todos – diga-se de passagem que todo liderado gosta de ser orientado que, como bom filho, já recebe seu futuro traçado.

Sem o papel do pai enquanto ordem, alguns ficam como parte dos professores que também perderam essa posição respeitável, e se sentem desorientados por uma sociedade que prefere o respeito aos alunos, temendo até dar uma falta e ser desacatado pelo aluno, ou pior, pelo pai do aluno que não entende o motivo de tamanha perseguição com seu filho protegido. Sergipe, e talvez o nosso pais, precise saber que modelo deve ser melhor adotado, que liderança na direita, ou na esquerda, pode ocupar simbolicamente esse papel de pai que representava a lei e a ordem, ou se seguimos de forma multifacetada procurando uma solução para a família, que também possa ser adotada na política.

Não sou cientistas politico, mas hoje vejo um  centro  com bons nomes na  liderança de seus partidos, e de diversos partidos dividindo esse papel, com o PSD do governador no comando. Mesmo assim, ainda não percebemos esse lugar de pai sendo ocupado,  até porque o governador é uma liderança jovem, que soube sabiamente mudar o quadro no segundo turno com a soma de diversas lideranças da capital e do interior.

Por outro lado,  na antiga esquerda temos duas grandes lideranças brigando por esse lugar no mesmo partido, diga-se de passagem, em postos importantes no cenário federal – o Senador Rogerio Carvalho (na mesa do Senado), e o Ministro Marcio Macedo (assessor direto do presidente). Ironicamente ambos os lados têm o apoio e a “facilidade” de ter um presidente da República amável aos dois.

Com a queda do Pai, da lei, e da ordem do antigo modelo, cada membro da nova família quer projetar um futuro, que não me parece ser para todos, mas um modelo egotista de cada um por si, onde todos, ao mesmo tempo, se permitem ocupar esse lugar tão almejado desde o inicio de nossa civilização, assim como as famílias de hoje tem encontrado o caminho para uma melhor harmonia, os políticos precisam, em harmonia, encontrar o melhor para o povo como um todo.

 

Alexandre Maynard Wendel (@amwendel)